Capítulo 4: Onde Tudo Começou
Neste quarto capítulo da nossa jornada, decidi retornar às origens. Se hoje este blog existe com o rigor e a estética que vocês conhecem, muito se deve aos anos que passei cruzando os portões da Rua Alagoas. Celebrar o aniversário do blog homenageando a instituição que me deu as ferramentas para escrever minha própria história pareceu o caminho mais natural.


Essa é uma história sobre pertencimento em dois mundos diferentes
Do Tremembé a Higienópolis: a trajetória de quem atravessou a Zona Norte para conquistar o sonho da graduação em uma das instituições mais tradicionais de São Paulo. Escrever sobre esse percurso é falar de uma jornada de transformação, tanto geográfica quanto pessoal.
Morar longe da faculdade, embora cansativo, cria um tempo de introspecção. “Será que vai valer a pena esse sacrifício?” — eu me perguntava. Chegar ao destino, com seus carros importados e prédios de alto padrão, vindo de uma região onde a natureza ainda dita o ritmo, trazia uma perspectiva única. Eu era uma observadora privilegiada desses dois universos.
Ao término das aulas, de segunda a sexta-feira, não havia sensação melhor do que descer a ladeira da Rua Alagoas até o Pacaembú e embarcar no ônibus com destino a Santana. Ao desembarcar em Santana, embarcava em outro ônibus com destino ao Tremembé, sentindo o ar mudando conforme eu me aproximava da Serra da Cantareira. O corpo relaxava e a pressão acadêmica ficava para trás, no centro. Ao chegar em casa, por volta da meia-noite, o alívio do dever cumprido após um dia trabalho e cheio de aulas, trabalhos e provas na FAAP. Minha mente transbordava de cansaço após um dia exaustivo. Esse deslocamento moldou minha criatividade e minha forma de ver o mundo.
A Travessia Simbólica
Essa jornada atravessa muito mais do que os 20 quilômetros que separam o extremo norte do coração do Pacaembu. Enquanto o Tremembé oferece o verde, ele também impõe o isolamento. Conciliar o trabalho com os estudos exigia fôlego; cruzar a cidade para chegar à Fundação Armando Alvares Penteado de segunda a sexta era uma rotina exaustiva, mas era a minha realidade.
Estar ali representava a entrada em um universo de tradição arquitetônica e acadêmica. O campus não é apenas uma faculdade; é um centro de influência em Artes, Comunicação, Business e Direito. Para quem vem de longe, ocupar aquele espaço é a validação de um esforço que envolve logística familiar e financeira muitas vezes no limite.


Ali, aprendi que a técnica sem alma é vazia e que a criatividade exige repertório. O campus de Higienópolis, onde me formei, é um dos maiores polos de efervescência cultural e estética de São Paulo.
O café no pátio, as conversas sob os vitrais, o movimento da ladeira, o croissant na padaria Barcelona e o sentimento de pertencer a uma comunidade que respira inventividade. Os corredores não eram apenas passagens, mas galerias de inspiração cotidiana.
Aluna do Professor Luiz Alberto Machado, economista

Dizem que a faculdade nos dá o diploma, mas são os mestres que nos dão o Norte. Tive o privilégio de ser aluna do Professor Luiz Alberto Machado. Para muitos, ele representava o rigor matemático e a exigência máxima; para mim, foi o arquiteto da minha forma de pensar.
Frequentemente, ao escrever um post ou analisar um cenário aqui no blog nestes últimos 15 anos, me pego filtrando a informação com o crivo crítico que herdei dele. O rigor técnico e a liberdade criativa que a instituição me proporcionou foram os pilares para manter este projeto vivo por uma década e meia.
Este Capítulo 4 é dedicado a ele: o mestre que me ensinou que, na economia e na vida, o valor real não está no que é efêmero, mas no que resiste ao tempo.
Obrigada, Machado, por me ensinar a construir algo que, 15 anos depois, ainda tem muito a dizer.
