Qua, 29 de maio de 2013 – Rodoanel vai contratar mais 500

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Alberto Luiz Lodi (à direita), outros representantes da SPMar e público em geral participaram de lançamento de cursos / Foto: Divulgação

A concessionária SPMar, responsável pelo trecho leste do Rodoanel Mário Covas, deve contratar nos próximos meses mais 500 trabalhadores, sendo a maior parte do Alto Tietê, para que integrem as frentes de trabalho espalhadas pela via. O objetivo é intensificar os serviços em canteiros já montados e iniciar as obras nos entroncamentos em que o corredor cruzará com as rodovias Ayrton Senna (SP-70) e Presidente Dutra (BR-116), cujas últimas licenças ambientais foram emitidas há pouco mais de 10 dias.

As informações foram passadas pelo diretor executivo da empresa, Alberto Luiz Lodi. Ele esteve ontem (28) pela manhã no lançamento de cursos profissionais na Secretaria Municipal da Indústria e Comércio de Itaquaquecetuba (saiba mais nesta página). “Hoje temos 5,2 mil colaboradores em 51 frentes de trabalho. Com as novas licenças recebidas há 10 dias para a construção dos dispositivos (lotes) 8, na Ayrton Senna, 9, na Ayrton Senna com a Dutra e o 10, este finalizando na Via Dutra, onde acaba o trecho leste. As liberações foram emitidas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e para reforçar as obras devemos contratar mais 500 pessoas, grande parte da Região”, explicou.

No lote 8, em Itaquá, estão projetados um viaduto e alças de acesso que vão ligar o novo corredor com a SP-70. Haverá a abertura de pistas sobre a região da Itaquareia. No seguinte serão feitos serviços de retirada da vegetação, a terraplanagem, além de acessos à Ayrton Senna e à BR-116. Por fim, já em Arujá, a última etapa prevê outra entrada para a Via Dutra e ligação com o trecho norte do Rodoanel, a ser concluído até 2016. (Lucas Meloni)

Leia a matéria completa na edição impressa

Fonte: http://odiariodemogi.inf.br/cidades/cidades/15606-rodoanel-vai-contratar-mais-500.html

Trecho leste do Rodoanel tem viaduto de 8,8 km construído com tecnologia portuária

Sistema com uso de cantitravel elimina etapas construtivas e reduz deslocamento de mais de 4,5 milhões de m³ de terra.

A obra do encontro leve estruturado do trecho leste do Rodoanel possui tecnologia portuária que permite a cravação das estacas de sustentação de forma aérea, ou seja, sem contato com o solo. O encontro leve é um viaduto de 8,8 km de extensão que está sendo construído em Suzano (SP), sobre as várzeas dos rios Tietê e Guaió. A execução dele é feita com auxílio de uma máquina chamada cantitravel. Segundo a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), é a primeira vez que esse equipamento, geralmente utilizado em obras portuárias, é usado para construção de uma rodovia.

Na manhã desta quinta-feira (19), as obras do viaduto foram visitadas pelo governador Geraldo Alckmin, que destacou a solução adotada, principalmente por reduzir o impacto ambiental nas várzeas, que recebem as cheias dos rios. Nesse trecho do Rodoanel, as pistas serão suspensas e o uso do cantitravel evitará o deslocamento de 4,5 milhões de m³ de terra, quantidade equivalente a dois estádios do Macaranã cheios, segundo a Artesp.

Se a execução fosse feita por meio do sistema convencional, seria necessário executar dragagem, escavações ou aterros para execução dos blocos de fundação e, a partir daí, pilares e a estrutura seriam construídos. Com a tecnologia adotada, essas intervenções são dispensadas e a estaca é o próprio pilar do viaduto. Ao todo, serão utilizadas 2.880 estacas, 8.640 vigas, 183 mil m³ de concreto e 22 mil toneladas de aço.

O encontro leve estruturado terá 8,8 km de extensão e será complementado por mais dois viadutos, que atravessarão as rodovias Henrique Eroles e Ayrton Senna, totalizando 12 km. Assim, será a maior ponte do Estado de São Paulo e a segunda do País, atrás apenas da Ponte Rio Niterói, com 13 km.

O investimento para a construção das pistas suspensas será de R$ 380 milhões. José Alberto Bethônico, diretor de engenharia da concessionária SPMar, empresa do Grupo Bertin que administra o trecho sul e está construindo o trecho leste do Rodoanel, explica que o custo por m² será um pouco superior ao sistema convencional. Mas, o prazo de execução será menor, garantindo a entrega no prazo. Além disso, a obra será sustentável, como exigia o governo.

Ao todo, o trecho leste do Rodoanel custará R$ 2,8 bilhões e será concluído em março de 2014. O diretor de engenharia da SPMar afirmou que as obras estão dentro do cronograma e o encontro leve deverá ser entregue cerca de um mês antes desse prazo.

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19/Julho/2012 – Romário Ferreira

http://www.piniweb.com.br/construcao/tecnologia-materiais/trecho-leste-do-rodoanel-tem-viaduto-de-88-km-construido-263079-1.asp

Encontro Leve Estruturado – Trecho Leste do Rodoanel

A obra do encontro leve estruturado do trecho leste do Rodoanel possui tecnologia portuária que permite cravação das estacas de sustentação de forma aérea. O encontro leve é um viaduto de 8,8 km de extensão que está sendo construído em Suzano (SP), sobre as várzeas dos rios Tietê e Guaió. http://goo.gl/n9pZR

JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA – COPA DO MUNDO, RODOANEL E O ATAQUE À CANTAREIRA: O JOGO COMEÇOU

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Foto: Celso Heredia / Estrada de Santa Inês (ETA Guaraú)

Antes de se iniciar a COPA-2014, o jogo pela conquista do espaço vital e pela disputa do bolo já está em campo. De um lado, o governo com seu poderoso arsenal se prepara para desventrar a Serra da Cantareira com o rodoanel-trecho norte, ‘a maior obra rodoviária do País’, vitrine do governo Alckmin, contemplada pelo PAC: obra bilionária, de mais de seis bilhões. Com seus sete túneis a 90 metros de profundidade e mais de 20 viadutos se equilibrando nos contrafortes da serra (cujo solo é mais vulnerável que o das áreas de Teresópolis), a super-rodovia promete ser uma panaceia para tudo, desde retirar o tráfego pesado das marginais, reduzir a poluição do centro urbano, até criar milhares de empregos. “A OBRA É INEVITÁVEL’, insiste o governo.

De outro lado estão os resistentes: mais de 10 000 brasileiros que perderão seus lares (se juntarmos os ´refugiados ambientais` dá para encher um estádio) e uma pequena liderança, que alguns, com desdém, sempre buscam desqualificar nominando-os como o ‘exército de Brancaleone’. Além destes, estão ainda outros, bem informados e conscientes. Mas a maioria pouco sabe, não se informa e nem se envolve…

‘Assina aqui que o trator vem atrás’

Apitado o início da partida, o governo promete iniciar as obras depois do carnaval, ou antes da Páscoa, o que dá no mesmo. Empréstimos externos obtidos, licitação executada, empresas contratadas, inclusive astros da Espanha, os tratores batem às portas. E já começa o plano de remoção forçada dos milhares de residentes, na sua maioria sem titulação legal de seus imóveis. E aí vem a Operação Arrastão – ´assina aqui que o trator já vem atrás, derrubando tudo e, se não estiver de acordo, vá discutir na justiça, mesmo porque seu vizinho já concordou`. Isto é terror de estado desrespeitando os direitos humanos – alertam os resistentes.

O jogo se radicaliza, não adianta ponderar. Vejam: o ex-governador Serra, um tecnocrata, reconhecia a fragilidade serrana da Cantareira e dizia textualmente “Ao invés do rodoanel, vamos pensar na rodoferradura”. Porque não? Mas bastou sair do gramado e seu conselho foi embora com ele.

Cantareira não é a bola da vez

E neste momento entra em campo o carrossel holandês fazendo tremer os alicerces do Itaquerão – COPA DO MUNDO SIM, MAS A CANTAREIRA NÃO É A BOLA DA VEZ. Começam por desconstruir as falácias que o governo divulga para vender o rodoanel: vai desafogar as marginais. Falso! Cinco especialistas em tráfego e logística desmentem essa afirmativa. Menos poluição na cidade. Falácia! Na realidade, essa poluição será exportada para áreas de pureza ambiental.

Alertam os ambientalistas que, a despeito de se afirmar que os danos da obra foram minimizados, a realidade será esta: destruição de mais de 200 nascentes, destruição de áreas verdes correspondentes a dois Parques Ibirapuera, destruição dos mecanismos naturais que impedem o avanço das ilhas de calor, brutal movimento de terra que entupirá o Tietê, mais impermeabilização do solo, potencializando as enchentes catastróficas na cidade, impactos na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de SP, distúrbios nos 11 Parques Municipais da Borda da Cantareira, dano à saúde publica, violação do Plano Diretor da Cidade e violação das normas de empréstimos do BID. Realmente, uma imagem negativa para o Brasil no início da Copa – que ironia – cujos símbolos serão o tatu-bola, o mico leão dourado e o muriqui, animais em extinção. Ação marqueteira despudorada. Pura hipocrisia dizer que o Brasil protege a natureza quando debaixo de nossos olhos ela é destruída na cara dura. A turma do Itamaraty está preocupada com tal contradição, e a UNESCO observa no banco dos reservas.

Cartões vermelhos

Retórica à parte, o que esses românticos ambientalistas colocam concretamente para a arbitragem? Existem ao menos cinco cartões vermelhos na marca do pênalti.

-Ação Civil Publica – A.I. 20 503-35.2012.8.26.000, onde o Procurador de Justiça Daniel Fink é fulminante: o rodoanel viola o Plano Diretor da Cidade. Manda cassar todas as Licenças da obra imediatamente e comenta que obras como essa levam a cidade de São Paulo ao caos.

-O Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, José Américo, um dos pais do Plano Diretor de 2002, não deixa margem à dúvida: esta obra viola as legislações local, nacional e internacional, e principalmente o Plano Diretor. Uma forma de tornar o processo democrático é colocar o rodoanel em discussão no bojo do novo plano diretor que começa a ser discutido agora.

-Várias ONGs nacionais e internacionais lideradas por PROAM, (está entre as mais antigas do País e foi recentemente eleita em primeiro lugar para o CONAMA), conseguiram do BID-MICI (Mecanismo Independente de Consulta e Investigação) elegibilidade para receber um Painel de Investigação (BR –MICI003-2011.MARIO COVAS RODOANEL NORTHERN SECTION MEMORANDUM OF ELIGIBILITY FOR THE COMPLIANCE REVIEW PHASE-Dec. 23, 2011) que deve visitar o Brasil em maio-junho de 2013. Mais de 30 documentos foram encaminhados a Washington, e o Painel de Investigação já admite que várias denúncias procedem. Tudo o que os resistentes exigem é uma investigação externa, independente, imparcial, transparente. O governo grita que esta elegibilidade não existe. É puro jus sperneandi …

-Recentemente, acadêmicas de Berkeley, School of Law- SEEJ (Students for Economic and Environmental Justice) visitaram o Brasil a convite de PROAM, fizeram análises de campo e de gabinete, comprovaram o teor das denuncias da comunidade e fizeram uma representação ao Congresso Americano, pedindo o embargo imediato das verbas do BID para o rodoanel, acompanhada de carta a mais de 20 Senadores Americanos. É sabido que o Tesouro Americano é o maior supridor de recursos ao BID e busca evitar remessa de dinheiro ao exterior para violar os direitos humanos e a natureza. Há mais de 20 anos, quando o Vale do Tremembé e a Cantareira foram ameaçados por uma rodovia, o Senado Americano exigiu do BID investigação rigorosa, e os recursos foram anulados.

-Moção do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica à Ministra de Meio Ambiente, solicitando revisão da obra pelos impactos negativos causados.

Folclore

Em jogo que se preza não podem faltar o folclore, as conversas de bastidores, as fofocas de vestiário, nem galo preto na encruzilhada. Aqui também tem isto. Já houve um espetáculo antropofágico no Teatro Oficina, onde artistas, intelectuais e muitos outros setores da sociedade repudiaram a obra. O curupira, o jurupará e o saci foram invocados para proteger o solo sagrado da Cantareira.

IBAMA de SP: comportamento esdrúxulo

Na concessão da Licença prévia da obra, a Superintendência do IBAMA em SP afirmou que ´não havia tido tempo para analisar tão complexa matéria` (sic) . Mesmo assim o processo obteve licença!!! Sabedora do caso, a ministra do meio ambiente ficou furibunda e esbravejou: ´vocês me conhecem, pão pão, queijo queijo, no embromation`. Ato continuo, chamou seu funcionário e exigiu maior rigor na análise do jogo.

Abdução? O Parecer emitido pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente foi firmado por mais de seis técnicos do mais alto nível dessa Pasta, que encontraram mais de 60 inconsistências técnicas e ilicitudes no estudo oficial e o taxaram de ‘medíocre’ (Parecer N.104/DECONT- 02/2011).

Apontam que no campo da várzea da fazenda Santa Maria existem mais de 200 macacos (nenhuma alusão aos jogadores brasileiros discriminados no exterior) que ficariam desabrigados… Depois dos sem-terra, dos sem-teto, agora teremos os sem-árvore. Por que não escolher esses bichos como símbolo da Copa? Hoje tal Parecer vem à luz, produzindo arrepios na torcida.

Bilhões e bilhões: que você também paga

As novas arenas da COPA-2014 foram estimadas originalmente em cerca de 2 bilhões, e hoje o orçamento anda pela casa dos 7 bilhões (OESP- 03/03/13). Com o rodoanel acontece o mesmo, e o senhor Pagot- ex DENIT afirmou, em revista de grande circulação, que nos trechos já construídos do rodoanel havia improbidade administrativa. Os ambientalistas denunciaram esses fatos graves à Presidência da República, que os acolheu e encaminhou a CGU, pedindo investigação (Ofício N.2018/2012-GP/GAB/GESTÃO/AGI).Chamado a depor no Parlamento, Pagot desconversou – tudo não passava de ´conversa de botequim`. Na realidade, Pagot não quis pagar o pato sozinho e passou de pato a ganso, para ficar no jargão futebolístico. Os ambientalistas exigem transparência nas contas e afirmam que, se no preço das obras do rodoanel forem acrescidos os passivos socioambientais e os serviços da natureza (água, ar, amenização climática, saúde, etc.) o custo total da rodovia se aproximará dos 50 bilhões. Afirmam que deve haver ética e controle social…”Esses ecologistas continuam uns eternos ingênuos. Acreditam no coelhinho da Páscoa”, diz a torcida.

Herança da ditadura

Historicamente, os governos militares sempre jogavam essas mega-estruturas em áreas de pureza ambiental. Tudo para diminuir os custos de desapropriação, claro. Assim começaram a construir o aeroporto internacional de São Paulo, em cima da Reserva de Caucaia- Morro Grande, hoje, coração da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de SP. A sociedade indignada se mobilizou e, liderada por pessoas que corajosamente combatiam a ditadura, obrigou o governo a retroceder. O cardeal Arns (um papável, na época) rezou missa campal no local, e o aeroporto voou para outras bandas.

No fim da década de 1980, o governo municipal planejou uma rodovia que cortaria o Horto Florestal e vários bairros da zona norte da cidade. O paredão sul da Cantareira seria escancarado à especulação imobiliária, o desmatamento iria campear e milhares de pessoas da vizinhança seriam jogadas na rua. Tudo com dinheiro do exterior, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). A sociedade se mobilizou, exigiu uma perícia externa do banco. Vieram seis peritos desde Washington e, constatando a procedência das denúncias, mandaram cancelar o empréstimo. Este caso se torna referência internacional, e a líder do movimento, Vera Lucia, relata esta história de êxito no exterior.

Na sequência, o governo do estado lança a VPM- via perimetral metropolitana, DNA do atual rodoanel. Novamente a sociedade se mobiliza sob o comando de Vera Lucia, Cardeal Arns, prof. Aziz Ab’Sáber, prof. Paulo Nogueira Neto, jornalista Randau Marques e jurista Ascanio Castilho. São coletadas 150.000 assinaturas e, avançando para além da defesa, conseguem transformar a região ameaçada em Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de SP, um patrimônio planetário, ao abrigo da UNESCO. O Banco Mundial, que deveria financiar a obra, nega o empréstimo, e a iniciativa perde momentum histórico.

Fonte: http://www.jornaldaserra.com.br/#
Fundado em Agosto de 1991
Diretores: Celso Heredia e Isabel Raposo, Jornalista responsável
MTb 19268

A redescoberta de uma floresta

Construção de rodoanel motiva expedições científicas à Serra da Cantareira, na Grande São Paulo.

© EDUARDO CESAR
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O início de uma estrada: a vegetação nativa a ser removida em um dos canteiros de obra do trecho norte do rodoanel

No início de fevereiro, em uma das expedições semanais dos pesquisadores do Instituto de Botânica às áreas a serem cortadas pelo trecho norte do rodoanel – a estrada de 180 quilômetros (km) de extensão em fase final de construção em torno da Grande São Paulo –, a botânica Cíntia Kameyama reconhece e colhe espécies de plantas provavelmente raras do cerrado que crescem em um campo ao lado de um sítio a seis quilômetros do aeroporto de Guarulhos. “A estrada vai passar aqui e esta área de mata vai desaparecer”, ela comenta, enquanto separa as plantas colhidas. “O último túnel do rodoanel começa ali”, diz o botânico Paulo Ortiz, apontando para um morro coberto de árvores, entre as quais se destacam as flores coloridas das quaresmeiras. Logo depois Regina Shirasuna volta de uma caminhada a um aglomerado de árvores carregando uma pá e vários sacos que escondem apenas a raiz das plantas que ela colheu: “Vou replantar ainda hoje”. Em seis meses de trabalho, as equipes de resgate tinham recolhido cerca de 200 plantas e as levado para serem cultivadas no instituto. Das 20 áreas visitadas, algumas eram usadas para desova de cadáveres ou encontros de grupos religiosos, que se reuniam em clareiras da mata para cantar alto e, quando os pesquisadores passavam, cumprimentavam com um “paz, irmão!”.

O trabalho de campo se intensificou em abril, quando outros grupos de botânicos começaram a resgatar bromélias e outras plantas raras penduradas nas árvores das matas a serem suprimidas nas bordas da serra da Cantareira, a maior floresta urbana do país, com 30 km de extensão, em boa parte já ocupada por bairros populares e condomínios luxuosos, na zona norte de São Paulo e em municípios vizinhos. Ao mesmo tempo, biólogos e veterinários entraram na mata para cortar a vegetação mais baixa e fazer muito barulho para resgatar filhotes e espantar para o alto da serra os que pudessem fugir. Eles trabalhavam com pressa: logo chegariam os tratores para remover a vegetação nativa das áreas que serão tomadas pelas pistas do trecho norte do rodoanel, que terá 44 km de extensão, boa parte em Guarulhos. Em três anos, quando estiver pronto, esse trecho completará o anel viário que deve desviar os caminhões que chegam de outras regiões do país e hoje têm de passar pelas avenidas marginais, dificultando o trânsito dos moradores da Grande São Paulo.

© DANIEL DAS NEVES
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Em consequência das exigências ambientais, impensáveis até há poucas décadas, quando as rodovias se impunham sem questionamentos sobre as florestas do país, provavelmente nunca antes uma estrada foi construída com tantos cuidados – até os engenheiros tiveram de abdicar da autonomia e trabalhar com pesquisadores dos institutos de Botânica e Florestal. Para complicar, a estrada teria de passar por bairros densamente povoados de São Paulo e Guarulhos e próxima ao Parque Estadual da Cantareira, uma área de preservação de remanescentes de mata atlântica. Com 80 km2, o parque abrange quatro municípios – São Paulo, Mairiporã, Caieiras e Guarulhos – e abriga 25% da área original e pelo menos 60% da cobertura vegetal da serra, além de proteger as nascentes que fornecem água para os moradores da metrópole desde o final do século XIX.

Desde que começou a ser planejado, há 10 anos, o traçado do trecho norte passou por transformações radicais para reduzir os impactos ambientais – uma das propostas era passar ao norte da serra da Cantareira, não ao sul, como no trajeto aprovado. “Examinamos dezenas de possibilidades de traçado, em interação com as prefeituras e as secretarias de meio ambiente dos municípios a serem atingidos”, diz Carlos Henrique Aranha, diretor da Prime Engenharia, empresa de gerenciamento ambiental contratada pela Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), empresa pública responsável pela construção do trecho norte.

© FRANCISCO VILELA/IF
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A cidade e a serra: o Núcleo Cabuçu e o contínuo de florestas protegidas pelo parque (acima) e plantas coletadas em Guarulhos em fase de identificação botânica.

O traçado final é o resultado de muitas negociações, não só entre órgãos do governo. Os protestos e as pressões dos moradores da região norte da capital e dos municípios a serem atingidos pelas obras resultaram em vários ajustes: a estrada desvia de um campo de tênis, de uma caixa-d’água que havia sido recém-construída quando foi anunciada, de um condomínio de luxo e de uma paineira com 15 metros de altura repleta de bromélias. Mas vai ocupar o terreno da escola em uma avenida de terra na periferia de Guarulhos, que deverá ser refeita em outro lugar. Ninguém diz que o traçado da estrada – construída a um custo estimado em R$ 6,5 bilhões – é perfeito, mas “o de 10 anos atrás era mais impactante”, diz Geraldo Franco, pesquisador do Instituto Florestal. “A obra já foi bloqueada por causa da oposição de ONGs e órgãos ambientais do governo que analisaram os relatórios de impacto principalmente sobre a serra da Cantareira”, ele relata. A estrada que começou a ser construída vai cortar o parque por meio de túneis.

Repor o que cortar

Para reduzir o impacto da obra, a regra é simples: repor o que tiver de ser removido. A Dersa anunciou que garantirá uma indenização ou uma casa nova às 3.490 famílias atingidas pela obra. Há uma grande preocupação também com a fauna – incluindo cerca de mil cães e 800 gatos mantidos pelos moradores – e com a flora. “Possivelmente teremos menos resgates que no trecho sul, porque os animais terão para onde fugir”, disse o veterinário Plínio Aiub, coordenador do grupo de empresas responsáveis pelo afugentamento e resgate de fauna, em uma reunião de planejamento realizada no início de fevereiro na Dersa.

© EDUARDO CESAR
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Na região por onde a estrada vai passar, de acordo com inventários anteriores, vivem 234 espécies de aves, 49 de répteis e 65 de mamíferos – incluindo bugios, preguiças, veados, gambás e ouriços. Cogita-se a construção de túneis e corredores com cordas entre árvores nas estradas que cortam a serra para evitar atropelamentos e facilitar a passagem de animais. “Se vai funcionar? Só testando para saber”, diz o ecólogo Márcio Port-Carvalho, do Instituto Florestal.

A vegetação nativa que tiver de ser cortada terá de ser reposta: é o reflorestamento compensatório, como já foi feito no trecho sul, inaugurado em 2010, e deve ser adotado também no trecho leste, já em construção. Em 2007, como condição para a aprovação do projeto de construção do trecho sul, órgãos ambientais estaduais e federais determinaram que a Dersa replantasse 1.016 hectares de florestas (cada hectare equivale a 10 mil metros quadrados), em áreas próximas à futura rodovia, para compensar a perda de 200 hectares de mata atlântica que cerca a Grande São Paulo. Até janeiro de 2012, em um terço das 147 áreas plantadas, a maioria das árvores tinha morrido ou não tinha crescido como se esperava, por causa de alagamentos, incêndios provocados, geadas, invasão de gado e oposição de moradores vizinhos (ver Pesquisa Fapesp nº 191).

Agora se prevê a reposição de cerca de mil hectares, em áreas próximas que ainda estão sendo identificadas. Um problema para o qual os especialistas ainda não encontraram solução é como repor as áreas de cerrado inesperadamente identificadas nos municípios de Guarulhos e Arujá, agora consideradas preciosas por representarem um tipo de vegetação eliminada com o crescimento das cidades e com obras como o aeroporto de Guarulhos. Planeja-se reaproveitar o solo que tiver de ser retirado nas novas áreas, mas não há garantia de que essa estratégia funcione, porque até hoje biólogos, agrônomos e engenheiros florestais não conseguiram manter de modo satisfatório as plantas do cerrado fora das áreas em que crescem naturalmente. “Os estudos sobre a produção de mudas de espécies do cerrado ainda são incipientes”, lembra Franco.

© EDUARDO CESAR
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A movimentação de homens e máquinas envolvidos com a construção do trecho norte está aumentando a visibilidade da serra coberta de mata atlântica, que ajuda os moradores de São Paulo a se orientarem geograficamente, mas ainda é pouco conhecida. A cada ano, 90 mil moradores da cidade visitam o Parque da Cantareira (aberto apenas nos finais de semana), a 20 km do centro da cidade, de onde se pode ter uma magnífica vista da metrópole, a mil metros de altitude. Não é muito se comparado com o Parque do Ibirapuera, que recebe 70 mil pessoas apenas em um sábado de sol.

Como os visitantes, os levantamentos sobre os animais e as plantas do Parque da Cantareira não são abundantes. “Ainda temos muitas espécies de árvores, entre elas duas de cinamomos, para serem descritas”, diz João Batista Baitello, biólogo do Instituto Florestal. Em 2010, seu colega Frederico Arzolla apresentou 101 espécies de arbustos e árvores que crescem em clareiras que haviam sido formadas para a instalação de torres de transmissão de energia elétrica e em 2011 outras 179 espécies de árvores encontradas em 11 km de trilhas no interior do parque. Desde o início do século passado os estudos se concentram nas áreas mais preservadas do parque, como o Pinheirinho, que Baitello visitou pela primeira vez logo depois de ter sido contratado pelo instituto, em 1976. Seis anos depois, ele e Osny Tadeu de Aguiar apresentaram o primeiro levantamento amplo dessa região, com 189 espécies de árvores, entre elas algumas majestosas como o carvalho-nacional, o guatambu, a canela-preta, o jequitibá-branco, o pau-terra e o pau-furado, a maior de todas, com até 40 metros de altura e 3 de diâmetro. O parque abriga 678 espécies de árvores e 866 de animais já descritas, de acordo com o plano de manejo, o mais completo inventário feito até agora. Esse trabalho, que pode ser encontrado no site do Instituto Florestal, apresenta também áreas prioritárias que deveriam ser mais estudadas (ver mapa).

© EDUARDO CESAR
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Bromélias e orquídeas coletadas e mantidas em viveiros

A diversidade biológica se deve à combinação de dois tipos distintos de mata atlântica, a ombrófila densa montana, encontrada em serras, e a semidecidual, com árvores que perdem parte das folhas nas épocas mais secas do ano, e à diferença de altitude, que varia de 775 a 1.200 metros. Segundo Alexsander Antunes, especialista em aves do Instituto Florestal, a época de frutificação de uma mesma espécie pode variar de acordo com a atitude: a palmeira-juçara, por exemplo, frutifica entre abril e junho nas regiões mais baixas e no final do ano nas mais altas, desse modo fornecendo frutos para arapongas e sabiás ao longo do ano todo.

Uma floresta de histórias

A Cantareira está muito ligada à história da capital paulista. “Muito provavelmente as árvores utilizadas para fazer as vigas sobre as paredes de taipa do Pátio do Colégio, construído no século XVI, vieram da serra da Cantareira”, diz Baitello, que em seguida mostra uma placa de canela-preta com pelo menos 460 anos de idade com que um morador da cidade, José Nunes de Vilhena, presenteou dom Bento José Pickel, padre beneditino e curador do herbário do então chamado Serviço Florestal, mais tarde Instituto Florestal.

Como os fazendeiros buscavam mais terras para plantar café, chá ou cana-de-açúcar, o desmatamento na serra cresceu bastante até o final do século XIX, quando o governo estadual resolveu agir, desapropriando fazendas para proteger as nascentes ou riachos que abasteciam a cidade – o nome Cantareira, por sinal, vem da palavra cântaro, onde os moradores e viajantes guardavam água. “A conservação ambiental no estado de São Paulo começou aqui, antes mesmo do conceito de parque ou reserva”, diz Arzolla. O parque nacional mais antigo do Brasil, o de Itatiaia, foi criado em 1937.

© ACERVO J. B. BAITELLO/IF
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Perereca de uma das áreas da futura estrada

A criação do Serviço Florestal em 1911 e da Guarda Florestal um ano depois assegurou a preservação da mata e de boa parte dos animais que a habitavam. Onças-pintadas e catetos não foram mais vistos, em consequência da fragmentação da mata e da caça intensiva, mas o parque e as áreas próximas abrigam uma das maiores populações de bugios (Alouatta clamitans) do país. “Por aqui vivem centenas de bugios”, diz Port-Carvalho, que está terminando uma estimativa da população desses animais. Das quatro espécies de primatas nativas encontradas atualmente na serra da Cantareira, a única ameaçada de extinção é o sagui-da-serra-escuro ou Callithrix aurita. Uma das maiores ameaças é o cruzamento com outras espécies de saguis que não viviam na serra, como Callithrix penicillata. “Na semana passada, pela primeira vez, vi um C. aurita andando com um grupo de C. penicillata em uma área contínua à Cantareira”, relata Port-Carvalho.

“Dos parques de mata atlântica, este é o mais fácil para ver bichos, tanto macacos quanto aves”, diz Antunes, que mora em um condomínio a dois quilômetros do parque em cujo jardim vivem bugios, tucanos e 80 espécies de aves. Desde 2005 ele identificou no parque 250 espécies de aves, incluindo algumas que ainda não tinham sido vistas na cidade de São Paulo, como o gavião-de-sobre-branco, o pica-pau-rei e o corocoró. Macucos, já raros no estado de São Paulo, podem ser vistos pelo parque “com relativa facilidade”, ele diz. “Quando a gente chega ao alto da serra em um dia úmido, com a neblina subindo, pode-se ver pingos amarelos se movendo no solo”, relata Gláucia Cortez, bióloga do Instituto Florestal. Os pontos amarelos são os sapinhos-pingos-de-ouro ou Brachycephalus nodoterga.

© EDUARDO CESAR
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Uma das estradas que cortam a serra

Não se sabe como as plantas e os animais vão reagir à redução da floresta, às obras e depois à estrada. “Os impactos negativos para alguns grupos de animais podem aparecer só depois de muitos anos, por isso é importante fazer monitoramentos de longo prazo”, alerta Port-Carvalho. Quem está planejando, abrindo ou acompanhando a nova estrada já está em alerta. “Seremos vigiados o tempo todo”, disse um engenheiro na Dersa. Eles temem que os moradores dos condomínios próximos à obra fotografem e divulguem pela internet qualquer irregularidade, assim que a virem.

Em meados de abril, Plínio Aiub, com sua equipe, já tinha encontrado – e removido para regiões mais seguras da mata – cobras e aranhas, além de terem visto bandos de macacos-prego que apareciam para espiar. “Fomos chamados para resgatar uma cascavel e encontramos uma Phyllomedusa, um gênero de perereca que normalmente vive em áreas baixas e úmidas, mas estava em uma região alta e seca”, diz ele. “No trecho sul, pegamos animais até o último dia da obra. Eles tendem a voltar para onde estavam antes.”

Artigos científicos
ARZOLLA, F.A.R.D.P. et al. Composição florística e a conservação de florestas secundárias na serra da Cantareira, São Paulo, Brasil. Revista do Instituto Florestal. v. 23, n. 1, p. 149-71, 2011.
Baitello, J.B.; Aguiar, O.T.; Rocha, F.T.; Pastore, J.A.; Esteves, R.. Estrutura fitossociológica da vegetação arbórea da serra da Cantareira – Núcleo Pinheirinho. Revista do Instituto Florestal. v. 5, n. 2, p. 133-61, 1993.
LEONEL, C. (Org.). Parque Estadual da Cantareira: Plano de manejo. 1ª ed. São Paulo: Fundação Florestal, 2009 (livro eletrônico).

Fonte: CARLOS FIORAVANTI | Edição 207 – Maio de 2013

A redescoberta de uma floresta